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O homem (de Veneza) que amava as mulheres (do mundo)

Veneza

Nunca um hedonista nasceu em um momento melhor e em um lugar mais apropriado:a Veneza do século 18 havia se aposentado da árdua tarefa de gerir um império marítimo e ia bem na nova carreira de capital do prazer da Europa quando Giacomo Casanova (1725-98) entrou em cena. Abandonado ainda criança, tornou-se jogador e candidato a libertino ao estudar Direito em Pádua. Formou-se aos 17 anos para assumir um cargo na Igreja em Veneza, mas as aventuras logo se tornaram sua carreira principal, tendo como atividades secundárias escrever cartas de amor para cardeais, ficar bonito de uniforme militar, e tocar mal violino numa orquestra de bêbados. Seu charme garantia recepção calorosa nas casas dos clientes ricos – e nas camas de suas esposas, amantes e filhas. Veneza era um lugar licencioso, mas alguns limites políticos ainda se aplicavam. Embora as aventuras de Casanova fossem perigosas para casamentos, seus flertes com a maçonaria e com os livros proibidos foram considerados nada menos do que uma ameaça ao Estado. Depois de uma noitada a quatro com o embaixador francês e duas freiras, Casanova foi preso sob a acusação nebulosa de “atentados contra a religião” e levado para o Piombi, a temida prisão no sótão do Palazzo Ducale. Condenado a cinco anos numa cela sufocante infestada de pulgas, queixou-se amargamente e abriu um buraco no piso de madeira – mas justo quando estava a ponto de fugir, um guarda simpático o transferiu para uma cela mais confortável. Ele logo inventou um plano B: escapou pelo teto de sua nova cela, entrou no palácio, e passou casualmente pelos guardas de manhã. Fugiu de Veneza para fazer fortuna em Paris e atuar brevemente como espião francês. Mas seus hábitos extracurriculares lhe causavam problemas sem fim: faliu na Alemanha, sobreviveu a um duelo na Polônia, foi pai e abandonou vários filhos (incluindo possivelmente o filho de uma de suas filhas) e contraiu doenças venéreas na Inglaterra (apesar do uso ocasional de um protótipo de preservativo de linho). No final da vida voltou a Veneza como celebridade e serviu ao governo como espião – mas foi exilado por publicar uma sátira da nobreza. Acabou como bibliotecário num castelo isolado na Boêmia, onde o tédio finalmente o levou a escrever suas memórias. No final, concluiu, “posso dizer que vivi”.

Este artigo foi publicado em Junho de 2014 e foi atualizado em Novembro de 2014.