Dicas e artigos

Os pesadelos dos repórteres de viagem

Tirando fotos na praia

Leif Pettersen

Não há viagem sem algum obstáculo. Apesar da tendência que temos de sentir que fomos especialmente selecionados para o castigo em questão, a verdade é que ele faz parte do acordo implícito que fazemos quando decidimos fazer uma viagem.

Quando um repórter de viagem sofre algum incidente quando está a trabalho, porém, a coisa muda de figura. Um atraso ou uma emergência não são apenas inconveniências, como também podem desencadear um efeito dominó de consequências, afetando o prazo de entrega do texto, o pagamento, o compromisso com os editores e patrocinadores e até as suas carreiras como um todo.

Perguntei a alguns repórteres de viagem experientes sobre os pesadelos que já viveram em suas expedições pelo mundo. Suas histórias perturbadoras variam de ser levado pela correnteza de um rio a cruzar com um furacão...

 

Maldição dos ônibus

Por Matt Gross

Estou na beirada do meio-fio, tremendo de medo. Não fiz nada errado, e ainda assim estou pagando um preço – um preço que não tenho como evitar, um destino que vou ter de aceitar. E, lá na esquina, descendo a rua, ele aparece: o ônibus.

Nunca nada de bom aconteceu comigo em um ônibus. Na Croácia, meu ônibus parou para um lanche – e me largou em Split enquanto eu estava comendo um borek gorduroso. No Vietnã, as mulheres começaram a vomitar em sacos plásticos assim que o ônibus deu a partida. De cidade desconhecida em cidade desconhecida, embarquei em ônibus e educadamente pedi aos motoristas que me avisassem quando deveria descer e, quando perguntava de novo após meia-hora, tinha sempre de ouvir “Mas o que você está fazendo aqui ainda?”.

É claro que isso nunca acontece no metrô, nos bondes elétricos e funiculares, em táxis, balsas ou aviões.

Ainda assim, toda vez que entro num ônibus, o sofrimento começa. Uma vez, em um ônibus em Chongqing, de repente me dei conta de que a minha viagem na China estava indo (muito) mal, e que eu tinha de deixar o país imediatamente. Mas, uma vez que desci do ônibus, reassumi o autocontrole. O mundo parecia diferente, melhor. Estava sobre os meus dois pés, do jeito que eu gosto.

Matt Gross é editor do site BonAppetit.com, antigo colunista do Frugal Traveler para o New York Times e autor de “The Turk Who Loved Apples: And Other Tales of Losing My Way Around the World” (algo como “O Turco que Amava Maçãs e Outros Contos de Como Me Perdi Pelo Mundo”). Para segui-lo no Twitter: @worldmattworld.

 

Lua de mel com furacão

Por Jill K. Robinson

Eu estava em Cuba a trabalho – mas era também a minha lua de mel. Quando o meu marido e eu chegamos a uma “casa particular” na cidadezinha de Viñales, a nossa anfitriã nos deu um recado: “Vocês podem ficar aqui, mas, quando o furacão passa, vocês não podem sair de casa para não correr riscos”. Não sabíamos que haveria um furacão, mas ela ligou a TV, e lá estava ele: ele passaria pela ilha em três direções, uma delas bem sobre Viñales. A casa dela parecia forte o suficiente, então concordamos. Na noite seguinte, os ventos sopraram e passamos a noite jogando dominó com os donos da casa, virando doses de tequila que havíamos trazido do México com o rum da cozinha deles. Quando o furacão mudou de caminho, o desastre em potencial teve um final feliz: acabamos fazendo fantásticos amigos cubanos.

Jill K. Robinson escreve sobre viagem, aventura, estilo de vida, comida e bebida para as publicações San Francisco Chronicle, AFAR, National Geographic Traveler e Every Day With Rachael Ray, entre outras. Para segui-la no Twitter: @dangerjr.

 

Jornada pelo Mississippi solitário

Por Mary Morris

No verão de 2005, um livro sobre a descida do rio Mississipi em um barco-casa me havia sido encomendado. Em julho, fui para La Crosse, no estado de Wisconsin, onde conheci dois entendidos do rio, Tom e Jerry. Jerry tinha um barco-casa que ele gostaria de mudar para o sul, no Tennessee. O plano era me levar até Cairo, em Illinois, onde eu encontraria outro barco-casa ou uma balsa para fazer o restante da viagem, até Nova Orleans.

O barco de Jerry, um antigo e desgastado River Queen, havia ficado estacionado sobre um trailer pelos últimos cinco anos. Tom e Jerry prometeram que iriam restaurá-lo para que ficasse pronto para enfrentar o mais bravo dos mares. Mas, no fim de agosto, o Furacão Katrina passou por nós. Por dias, as notícias eram incertas, mas depois ficou claro que Nova Orleans estava devastada, seu porto, fechado, e o trânsito no rio, interrompido.

No início de setembro, desci um verdadeiro rio-fantasma, em um barco que não tinha banheiro, nem eletricidade, nem compartimentos – basicamente, era um casco flutuante – sem ideia da minha direção e sem saber como chegaria ao meu destino após ser deixada em Cairo por Tom e Jerry.

Mary Morris passeou pelo México, cruzou a Sibéria, velejou pelo Mississippi e agora está à procura de tigres. Para segui-la no Twitter: @mmorris14.

 

Ansiedade versus realidade

Por Doug Mack

A ansiedade extrema faz parte do meu ritual pré-viagem. Reservar o voo, fazer a mala, lembrar de cada organização criminosa e vírus canibal do destino em questão. Mas os meus desastres, na verdade, foram menores e jamais considerados pela minha imaginação.

Em Havana, eu sabia sobre os golpes dados em turistas, exceto por aquele em que caí, envolvendo um motorista falso de táxi que esvaziou a minha carteira. Em Lima, outra vez, estava passeando pelo forte histórico – lindo e inofensivo – quando um soldado armado me parou para dizer que eu estava invadindo território militar em funcionamento. Felizmente, ele até achou graça e me deixou partir em paz.

Doug Mack é repórter freelancer e vive em Minneapolis. É autor das memórias de viagem “Europe on Five Wrong Turns a Day” (algo como “A Europa em Cinco Desvios Errados Por Dia”). Para segui-lo no Twitter: @douglasmack.

 

Pneu furado inesquecível

Por David Farley

Sempre tive muita sorte nas minhas viagens a trabalho. Nunca quebrei um osso, nem roubaram a minha carteira, nem fui vítima de nenhum golpe. Tive minha cota de reviravoltas estomacais na Índia, é verdade, mas isso é quase uma obrigação prevista em contrato.

Uma vez, em uma viagem pela Itália, meu carro alugado ficou preso entre as vielas estreitas do centro medieval da cidadezinha de Viterbo. Foi quase impossível virar o carro, mas eu precisava, logicamente, sair dali. Por fim, acabei conseguindo, mas não antes de bater em um degrau de pedra de um prédio de apartamentos. Pronto: o pneu furou. O que, para a maior parte das pessoas, não chega a ser um problema. Mas sou meio fracote, e lá estava eu, às 11h da noite, preso na rua... Até alguns fortões italianos trocarem o pneu e me salvarem. Ufa. Voltei para a minha pesquisa/reportagem no dia seguinte, e tudo acabou bem.

David Farley é autor de “An Irreverent Curiosity: In Search of the Church's Strangest Relic in Italy's Oddest Town” (algo como “Uma Curiosidade Irreverente: Em Busca da Relíquia Religiosa Mais Estranha na Cidade Italiana Mais Esquisita”), que está sendo transformado em documentário pela National Geographic no momento e editor colaborador da revista AFAR. Para segui-lo no Twitter: @davidfarley.

 

Sacrifício por uma boa história

Por Lavinia Spalding

Às vezes, fazemos cada coisa por uma boa reportagem... O meu sacrifício tem o nome de pulque, uma bebida mexicana fermentada, feita com o coração da planta agave. De cara, achei delicioso, como uma vitamina refrescante. O segundo gole já não foi tão gostoso – como uma papinha de bebê com álcool. No terceiro gole, por sua vez, senti um toque de suco de adubo ao final. Ou de coisa pior? Dizem que o processo de fermentação da bebida começa com fezes. Pode até não ser verdade, mas, quando comecei a me sentir mole e enjoada e parei de comer, perdi 3,5 quilos e descobri que estava infectada com a parasita giárdia, coloquei toda a culpa no pulque. Se eu faria de novo, só pela reportagem? Pode apostar.

Lavinia Spalding é editora da série “The Best Women’s Travel Writing” (“Os Melhores Relatos de Viagem de Mulheres”) e autora de “Writing Away: A Creative Guide to Awakening the Journal-Writing Traveler” (algo como “Guia Criativo para Despertar a Escrita de Viagem”). Para segui-la no Twitter: @laviniaspalding.

 

Leif Pettersen é autor da Lonely Planet, repórter freelancer de viagem e poliglota. Ele já visitou 51 países (até o momento) e pode ser encontrado em @leifpettersen.

 

 

Este artigo foi publicado em Dezembro de 2014 e foi atualizado em Dezembro de 2014.