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A Argentina e o tango

Tango

Uma mulher sozinha, vestida de saia com fenda e salto alto, senta-se numa mesinha. Ela olha ao redor, em busca de algum sinal sutil. De repente, fixa seu olhar nos olhos de um estranho, e então acontece o cabeceo. Ela acena com a cabeça e se levanta para encontrá-lo; o novo casal segue para a pista de dança.

 

A história do Tango

Acredita-se que o tango tenha surgido em Buenos Aires, com os imigrantes europeus
Foto por: ErnestoG/iStock/ThinkStock

 

O tango nem sempre foi tão misterioso, mas tem uma história longa e um pouco complexa. Embora as origens exatas não possam ser identificadas, alguns pesquisadores acreditam que a dança surgiu na capital argentina na década de 1880. Legiões de imigrantes europeus, principalmente homens de classe social baixa, chegaram na grande aldeia de Buenos Aires em busca de fortuna. Na falta da terra natal e das mulheres que deixaram para trás, eles procuraram bares, cafés e bordellos para aliviar a solidão. Nesses locais, os homens bailavam com as garçonetes e prostitutas, fazendo da dança uma mistura de machismo, paixão e desejo, com quase uma ponta de luta em tudo isso.

Pequenos conjuntos musicais logo se formaram para acompanhar os primeiros tangos, que tinham influências dos pampas, dos versos de milonga, das melodias espanholas e italianas, e dos tambores africanos de candombe (o bandoneón, um pequeno acordeão, foi levado a essas sessões, e desde então se tornou parte inseparável da orquestra de tango). Nesse momento também nasceu a canção do tango, que resumia a nova experiência urbana dos imigrantes, cheia de nostalgia pelo modo de vida desaparecido. Os temas variavam de sentimentos profundos a respeito de mudança de bairros, figura materna, amizade masculina e até traição por causa de mulheres. Às vezes eram acrescentadas letras obscenas.

O bandoneón, tipo de acordeão, se tornou parte fundamental do tango
Foto por: elnavegante/iStock/ThinkStock

 

A vulgaridade presente na dança era desaprovada pelas elites dominantes, mas conseguiu seduzir alguns jovens das classes superiores, que levaram a novidade para Paris, onde virou mania – uma dança que se tornou uma saída aceitável para os desejos humanos, expressos na pista de dança dos cabarés. A moda se espalhou pela Europa e Estados Unidos, e o ano de 1913 foi considerado o “o ano do tango”. A dança voltou a Buenos Aires evoluída, refinada e famosa, e finalmente conquistou o respeito que merecia. Os anos dourados do tango estavam apenas começando.

 

O tango nas milongas hoje em dia

O tango faz parte da história argentina, mas continua muito presente
Foto por: sodapix sodapix/ThinkStock

 

Buenos Aires está cheia de milongas (escolas ou salões de dança), de locais clássicos com clima de velhos tempos a espaços de vanguarda em armazéns onde os dançarinos vestem jeans. Há um pouco de tudo para todos. Em uma milonga, encontrar um bom parceiro envolve muitos níveis de códigos, regras e sinais ocultos que os dançarinos precisam seguir. Na verdade, alguns homens só vão se oferecer a uma mulher desconhecida depois da segunda música, para não escolher errado. Afinal, é considerado educado dançar pelo menos até o final de uma rodada (quatro músicas); se escutar um “gracias” curto e grosso depois de apenas uma música, considere-se dispensado.

A sua posição na área ao redor da pista de dança pode ser crítica. O ideal é sentar onde há fácil acesso à pista e à linha de visão dos outros dançarinos. Os solteiros sentam na frente, enquanto os casais ficam mais atrás. Em geral, são considerados “intocáveis” – para dançarem com outras pessoas, ou eles entram na sala separadamente, ou o homem sinaliza sua intenção a outra mulher na pista; então, a mulher “dele” fica disponível para os outros.

O cabeceo – a rápida inclinação da cabeça, o contato com os olhos e sobrancelhas erguidas – pode acontecer desde o outro lado da sala. A mulher a quem o cabeceo é dirigido ou acena que sim e sorri, ou finge não ter percebido. Se ela disser sim, o homem se levanta para acompanhá-la até a pista. Se ela fingir que não viu, isso é considerado uma rejeição. Se estiver numa milonga e não quiser dançar com ninguém, não olhe muito ao redor – você pode estar machucando corações.

Não se surpreenda ao ver diferentes milongas sendo realizadas no mesmo local, dependendo da hora ou do dia. Cada uma pode ser promovida por pessoas diferentes, por isso tem seu próprio clima, estilo, música e arranjo de mesas, além de níveis de idade e experiência.

Para ter boas informações sobre a cena do tango em Buenos Aires e como participar, solicite uma cópia do guia prático de Sally Blake Happy Tango: Sallycat’s Guide to Dancing in Buenos Aires, 2ª edição (www.sallycatway.com/happytango). Você pode pegar revistas de tango grátis nas milongas e lojas de sapatos de tango (existem muitas delas em Buenos Aires).

Cursos de tango quase sempre estão disponíveis nas milongas, horas antes delas começarem. Mas você pode encontrá-los por toda a parte, nos hostels e centros culturais – alguns até são incluídos gratuitamente quando você faz a reserva de algum show especial de tango. As aulas para turistas quase sempre são em inglês.

A cultura do tango está por todos os lados em Buenos Aires, até mesmo na arte de rua
Foto por: Creatas Images/Creatas/ThinkStock

 

Então, qual é o atrativo do tango? Dançarinos experientes dizem que o ímpeto causado por uma conexão bem-sucedida de tango com algum estranho pode provocar emoções inebriantes. A dança também pode se tornar um vício: ao compreender toda a paixão e beleza dos movimentos do tango, a pessoa vai querer passar o resto da vida tentando atingir a perfeição física, algo que talvez jamais seja alcançado. O verdadeiro tanguero simplesmente tenta fazer da sua jornada a mais digna e gratificante possível.

 

Esta matéria é um trecho da 3ª edição do guia Argentina da Lonely Planet. A edição acaba de ser lançada e possui muitas outras informações e curiosidades sobre a cultura do país. 

Este artigo foi publicado em Fevereiro de 2015 e foi atualizado em Fevereiro de 2015.