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Os rituais de passagem clássicos do viajante

Estrada na Escócia

por James Kay

Viajar: como foi para você? Você ‘se encontrou’ a meio caminho de uma montanha e voltou uma pessoa diferente? Conheceu o amor da sua vida na parte de baixo de um beliche num quarto de hostel? Tomou uma decisão que definiu seu destino no banco traseiro de uma caminhonete?

 

Talvez suas experiências tenham sido menos melodramáticas que essas. Mas, se passou qualquer fração de tempo vivendo com uma mochila ou uma mala, há uma boa chance de você ter registrado um, alguns ou, quem sabe, muitos dos clássicos rituais de passagem de um viajante.

Estes eventos variam do trivial ao transcendental, do desagradável ao maravilhoso. Mas, quaisquer que sejam os detalhes, eles o qualificam como membro vitalício da animada tribo que troca bilhetinhos nas encruzilhadas – salas de espera dos aeroportos, estações de trem, bares de hotel – onde em geral viajantes se encontram.

Aqui vão alguns que você talvez reconheça.

 

1. Aquele lugar especial

Rocha no Deserto Wadi Rum, na Jordânia
Foto por: 
©Tom Mackie/Lonely Planet

 

O quê? Só um? Mas você foi a dúzias de lugares especiais; de fato, há um argumento que diz que todo lugar é especial a sua própria maneira. Verdade. Mas esse lugar foi diferente. Não teve nada a ver com quanto tempo você passou nele também; talvez tenha sido só um dia, ou poucas horas apenas, mas algo nessa cidade, ou deserto, ou onde quer que seja, o marcou.

Além disso, ele ficou lá. Você juntou inúmeras fotos de suas aventuras no exterior e encheu cada parede, estante e feeds de redes sociais com elas. Mas esse – esse lugar especial – é o cenário daquela que está em sua carteira, bolsa ou sacola; uma imagem amassada e desbotada que você puxa e abre sempre que a vida o deixa olhando para a placa de saída.

E é o lugar ao qual você volta com frequência em seus sonhos.

 

2. O capitão ligou o sinal para apertar o cinto

A menos que você evite viagens aéreas como meio de transporte, provavelmente você ouviu essa mensagem em algum momento durante um voo.

Tecnicamente, a turbulência ocorre em três níveis: leve, moderado e intenso. A turbulência leve faz um avião sacudir para cima e para baixo por alguns metros numa corrente de vento, mas é o bastante para fazer com que passageiros ansiosos procurem o saquinho para vômito. Suba apenas um nível e até a brigada que voa com frequência perde o controle das bandejas do almoço. Turbulência intensa é tão rara que poucos pilotos a enfrentam em suas carreiras, imagine os passageiros.

Mas mesmo aquela turbulência do tipo despencamos-3000m-em-cinco-segundos – a propósito, você não despencou; você caiu por volta de 30m, no máximo – não representa ameaça à segurança do avião. No entanto, a menos que você possua os níveis de racionalidade de um Sr. Spock, os fatos não vão evitar que a região límbica do cérebro se manifeste ao primeiro tremor de asa.

 

3. O “bichinho” da viagem... não esse, o outro

Você pode viver em um regime de nada além de frutas recém-descascadas, se lavar feito um cirurgião depois de cada visita ao banheiro e se recusar a tocar uma maçaneta até que alguém a esfregue com um lenço antisséptico. Mas, se passou um tempo significativo viajando (especialmente em países quentes), há chances de você já ter sucumbido à diarreia dos viajantes.

Começa com um ronco na barriga, e aí rapidamente vai ficando mais ameaçador, como se um animal encurralado dentro de seu estômago tivesse acordado, se espreguiçado e, então, ficado completamente descontrolado (em um nível bacteriano, isso é preciso). Beba muita água, consuma alimentos leves e vá ver um médico se durar mais que alguns dias. Sim, sim; você conhece o procedimento. De outro modo, você só tem que sentar – acrescente uma privada para uma representação mais gráfica – e esperar.

Console-se com este pensamento: em poucos meses, você estará divertindo família, amigos e qualquer outra pessoa que esteja por perto com a história de como seu mundo caiu e como você caiu no mundo.

 

4. A viagem noturna de ônibus

Terminal rodoviário de Kanawaza, Japão
Foto por: ©cowardlion/Shutterstock 

 

Se você está com tempo, tomar um ônibus é uma ótima alternativa a pegar um avião. É mais barato, melhor para o ambiente e mais propenso a produzir uma boa história. Em alguns lugares, também é a única maneira para se chegar de A até B. Rituais de passagem em ônibus assumem muitas formas: doidos balbuciando no assento ao lado, motoristas com tendências suicidas, animais berrando nos corredores…

Cruzar fronteiras internacionais obscuras pode ser muito divertido. Num minuto, você corre o risco de ter uma hérnia de disco tentando achar uma posição confortável; no seguinte, um oficial carrancudo está confiscando seu passaporte sem explicação. Você não verá novamente esse documento de identidade por horas, e durante esse tempo você vai desfazer sua bagagem três vezes para inspeção, arrastá-la pela fronteira em um calor de 39ºC e, então, desesperado, tentar localizar de novo o ônibus certo em um estacionamento gigante e cheio de poeira antes que ele saia sem você.

Feito isso, o motorista vai colocar pela segunda vez aquele filme de ação dublado na tela acima de seu assento, banindo, assim, qualquer esperança de dormir. Dezesseis horas depois da partida, você sai tropeçando do ônibus parecendo-se com um figurante de A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero.

 

5. Minha linda lavanderia

Parece uma coisa tão sem importância, não? Mas pergunte a um viajante que usou a mesma roupa dia após dia durante uma viagem longa e cansativa, e ele vai atestar o prazer singular de uma roupa recém-lavada. Às vezes, refeições chiques, assentos na primeira classe e suítes em coberturas são mera ninharia se comparados a uma pilha de roupas dobradas com habilidade.

Então, deixe de lado menu-degustação com estrelas Michelin, assentos que se transformam em cama e lençóis de algodão egípcio de mil fios; porque poucas experiências sensoriais rivalizam com abrir com força uma secadora ou uma sacola de roupas aquecidas pelo sol, enfiar a cabeça lá dentro e aspirar uma lufada de um aroma visivelmente melhor que o cheiro de sua própria axila.

 

6. O colega de quarto que é um pesadelo

Imagine a cena: você sobreviveu à viagem infernal de ônibus que varou a noite, encontrou um hostel em seu destino final e o cansaço até os ossos de seus membros contorcidos está dando lugar a um estado quase zen enquanto você aguarda uma boa noite de sono.

Infelizmente, o sociopata da parte de cima do beliche tem outras ideias. Você mal começou a fazer os ajustes finais em sua máscara e tapa-ouvidos e eles irrompem porta adentro, acendem todas as luzes e puxam um violão para dedilhar os acordes iniciais de 'Knockin’ on Heaven’s Door'. Bob Dylan dá lugar ao repertório favorito deles no alto-falante, seguido meia hora depois por uma eternidade de contorções, depois roncos e – o insulto final – o som de gases.

Quando você olhar para trás, isso vai parecer divertido. Honestamente, vai.

 

7. Rompendo e farreando

A vida é mais intensa quando você viaja. Por quê? Porque você está saindo da zona de conforto, entrando no domínio do incerto e experimentando o mundo num estado elevado de consciência.

Este estado elevado pode lançar um novo vigor ao único objeto familiar exposto à vista: a pessoa com quem geralmente se divide o sofá em casa. Relações antes livres de problemas podem degringolar de repente tão logo o estresse pelo novo revela um lado delas que você nunca tinha visto antes. E, antes que você se dê conta, estará andando em direções diferentes, metafórica e literalmente.

O contrário também é verdadeiro, no entanto: para cada relação que sofreu autocombustão, outra foi construída durante a viagem. Seu rito de passagem pessoal pode ser platônico, um encontro de ideias que você e um novo BFF (Best Friend Forever – Melhor Amigo para Sempre) estabelecem sobre uma experiência compartilhada.
Por outro lado, você pode acabar juntando sacos de dormir por motivos menos bem-intencionados…

 

8. Um momento de epifania

Cruzando a Tower Bridge, em Londres, à noite
Foto por: 
©Walter Chung/Lonely Planet 

 

Epifanias não precisam mudar a vida para ter valor; você pode voltar sendo a mesma pessoa. Sua experiência pode durar só um ou dois segundos, mas a magia dura na imaginação.

E como é isso? É o sol como uma bola de fogo afundando no horizonte enquanto você o observa de uma rede amarrada entre duas palmeiras; é um gole de cerveja gelada depois de subir uma montanha com os pulmões queimando e as pernas doendo; é a generosidade inesperada de um estranho que nem mesmo fala sua língua; é o Taj Mahal ao amanhecer, o Grand Canyon ao entardecer, a Tower Bridge à noite. É a súbita compreensão de que você não tem de voltar pra casa. Não agora. Não ainda. Talvez nunca.

Qualquer forma pessoal que assuma, é o momento em que você percebe que o mundo é infinitamente maior, mais rico e mais misterioso do que você ousou esperar.

Bem-vindo à tribo.

Este artigo foi publicado em Fevereiro de 2016 e foi atualizado em Fevereiro de 2016.