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Atrás dos passos de Buda em Lumbini

Joe Bindloss

Não é todo dia que você pode seguir os passos do fundador de uma das grandes religiões do mundo. Mas também, nem toda religião pode ser mapeada através de paisagens reais com tanta precisão quanto o budismo.

Embora seja eclipsado pelo hinduísmo na terra em que nasceu, as origens do budismo estão nas planícies Terai do Nepal, onde o príncipe Siddhartha Gautama nasceu em uma família real do antigo reino de Kapilavastu e fundou uma fé que em certo momento conquistou a maior parte da Ásia, do Sri Lanka às Maldivas, do Tibet ao Afeganistão e à Mongólia.


Homens santos meditam em frente a uma árvore Bodhi no Templo de Maya Devi, lugar de nascimento de Siddhartha Gautama © Frank Bienewald-LightRocket / Getty Images

O local de nascimento do budismo

Apesar do alcance global do budismo, essa história épica começa no século V A.C. na humilde vila de Lumbini, hoje um desvio empoeirado da estrada cheia de caminhões que conecta a Índia ao Nepal. Nos anos logo após a morte de Buda – ao menos sua libertação do plano mortal – Lumbini foi o centro de uma comunidade religiosa em crescimento, diretamente inspirada pela lembrança dos ensinamentos do Buda vivo. Seus seguidores logo construíram uma cidade em miniatura com estupas de tijolos, tanques rituais e salas de oração em volta do lugar sagrado onde o príncipe Siddhartha veio ao mundo. Até mesmo o grande imperador budista Ashoka passou por aqui em 249 A.C. e deixou para trás um de seus famosos pilares de pedra para marcar a ocasião, enquanto espalhava entusiasticamente a fé budista pelo subcontinente. 

 

Mas algumas centenas de anos depois, viajantes chineses já descreviam um lugar abandonado, com monastérios em ruínas, e o pilar de Ashoka quebrado no chão, destruído pelas tempestades de raios que atingem a região a cada monção. E assim as coisas permaneceram pelos 1300 anos seguintes, até que em 1896, quando o governador local, o General Khadga Samsher Rana, e um arqueólogo alemão chamado Alois Führer desenterraram o pilar de Ashoka perto da vila então conhecida como Rummindeie colocaram Lumbini, literalmente, de volta no mapa.


O impressionante Templo Dourado do Myanmar, uma das primeiras estruturas budistas a surgirem na zona monástica © CR Shelare / Getty Images

Desde então, budistas de todo o globo devotaram energia – e dinheiro – para devolver Lumbini a seu lugar de direito como um ponto central da peregrinação budista, ainda assim esse lugar sagrado ainda é subestimado pela maior parte dos viajantes que passam pela fronteira da Índia com o Nepal, indo na direção de Kathmandu e as trilhas do Himalaia. Por enquanto, porém. Um novo aeroporto internacional está sendo construído perto de Siddharthanagar (antiga Bhairawa), na fronteira Indiana, e deve alterar massivamente a sorte de Lumbini com uma nova rota aérea mais segura para o Nepal e uma porta de entrada para Lumbini e as atrações pouco exploradas das planícies nepalesas.


O reluzentemente branco Pagoda da Paz Mundial foi construído por budistas japoneses © Paul Biris / Getty Images

Antigo e moderno lado a lado

Apesar de toda sua rica herança, a experiência de visitar Lumbini hoje é uma curiosa mistura de antigo e novo. De um lado, o chão está repleto das ruínas das estupas e monastérios de mil anos atrás, alternados com antigas árvores Bodhi, onde peregrinos com vestes que os identificam como pertencentes a uma dentre as dezenas de diferentes tradições budistas se sentam em uma meditação silenciosa, de forma semelhante ao que Siddhartha Gautama fez em seu tempo, antes de alcançar a iluminação em Bodhgaya, uma breve viagem ao sul cruzando o que é hoje a fronteira entre a Índia e o Nepal.

Do outro lado fica a curiosa Zona Monástica, um complexo crescente de monastérios reluzentes, templos e estupas, construídos por budistas que vêm de lugares distantes como o Myanmar, o Camboja e a Coreia. Em uma rede de pontes, canais, lagos e jardins está o epicentro do budismo, uma Feira Mundial de tradições budistas, dos zedis birmaneses folheados a ouro aos chortens geométricos tibetanos e os pagodas chineses cheios de incenso, com suas madeiras pintadas e telhados com curvas sinuosas.


Arquitetura tipicamente chinesa no Monastério Budista Chinês Zhong Hua © Mieszko9-iStock Editorial / Getty Images

Apesar do propósito ser firmemente religioso, há um toque de jardim de esculturas nesse complexo e os caminhos silenciosos e empoeirados são visitados, mas jamais lotados, por monges e peregrinos, o que aumenta o sentimento de se estar caminhando por uma maquete gigante. Isso garante bastante tranquilidade enquanto você experimenta uma amostra da Tailândia no Monastério Real Budista Tailandês, traços da China imperial no Monastério Budista Chinês Zhong Hua, uma cópia dourada de Burma no Lokamani Pula Pagoda, imponentes torres ao estilo khmer no monastério cambojano e a grandiosidade da Coreia dinástica no Templo Budista Coreano.

Ainda assim, não há multidões, e sua ausência contribui para a atmosfera calma e contemplativa, em um contraste notável com o agito frenético de Siddharthanagar e outras cidades Terai. Na viagem de ônibus de Siddharthanagar para Lumbini, o barulho e o caos arrefecem notavelmente a cada quilômetro e o sentimento de se estar entrando em um idílio rural domina. Às vezes – quando você faz uma pausa na sombra de uma árvore bodhi, ou observa os raros grous ruivos pousando nos pântanos atrás do japonês Pagoda da Paz Mundial, por exemplo – Lumbini pode parecer realmente sublime.


Raro grou ruivo caminha pelos pântanos em volta de Lumbini © Utopia_88 / Getty Images

Lumbini Espiritual

Em outros momentos, quando você se senta para as preces do amanhecer em um monastério ou se aproxima do santuário no templo de Maya Devi, que marca o lugar exato em que Buda nasceu, Lumbini pode parecer profundamente espiritual. Envolto por um casulo branco esteticamente duvidoso, o templo de Maya Devi é na verdade camadas de ruínas de outros templos, voltando até mil anos atrás, e centrado em uma laje de terracota colocada no ponto exato em que, segundo as escrituras budistas, a mãe de Buda andou 20 passos, agarrou o galho de uma árvore e se virou para o leste antes de dar à luz a Siddhartha Gautama.

A jornada se torna ainda mais pacífica, e interessante, se você pegar o ônibus local que vai de Lumbini a Tilaurakot, onde arqueologistas desenterraram as ruínas do que se acredita ser o palácio do Rei Suddhodan, monarca de Kapilavastu. Foi aqui que Gautama Buda viveu sua vida de luxo antes de deixar o complexo real aos 29 anos e descobrir o sofrimento humano pela primeira vez. Passeando pelas ruínas empoeiradas de mulralhas, é difícil visualizar esse lugar como um palácio extravagante, mas é impossível não apreciar a calma desse sítio arqueológico arborizado, cercado por quilômetros da pastos cor de esmeralda.


Campos verdes que se estendem por quilômetros em volta das ruínas de Tilaurakot © Casper1774 Studio / Shutterstock

Além de Lumbini

Espalhados pela paisagem ficam alguns locais menos visitados ligados à vida de Buda. Em Gotihawa, 5km a sudoeste de Tilaurakot, o toco gasto de um Segundo pilar de Ashoka marca o lugar de nascimento de Krakuchchanda Buddha, o primeiro buda da era atual e 8km a noroeste em Niglihawa, outro pilar Ashoka marca o lugar de nascimento de Kanakmuni Buddha, o segundo buda da era atual. Em Kudan, 5km ao sul de Tilaurakot, pedestais monumentais de estupas desaparecidas marcam o lugar do pomar onde Buda formulou vários princípios chaves da doutrina budista e algumas ruínas empoeiradas em Devadaha, 28km a oeste de Lumbini marcam o lugar de nascimento da mãe de Buda. Os poucos turistas que se aventuram até estes lugares vêm tanto pela chance de experimentar a vida nas vilas dessas planícies atemporais quanto pela arqueologia.

Claro que você não precisa se limitar a sítios budistas. Lumbini fica a uma distância fácil de vários outros desvios interessantes em Terai e Montanhas Médias. Imediatamente ao norte, onde as planícies dão lugar às montanhas da cordilheira Mahabharat, Tansen é uma clássica cidade montanhesa do Nepal, cheia de antiga arquitetura Newari, que recebe apenas um punhado de visitantes, apesar de seu aspecto calmo. Daqui, trilhas suaves pelas montanhas levam às vilas tribais Magar e ao decadente Ranighat Darbar, um palácio barroco construído para um general banido de Kathmandu por conspirar contra o governo. Há também o Parque Nacional Chitwan, o mais famoso santuário nepalense para tigres e rinocerontes indianos, um desvio fácil da estrada para Kathmandu.

Quando o aeroporto abrir, o número de visitantes irá aumentar nesses lugares, então visite agora enquanto a atmosfera de contemplação pacífica permanece.

Este artigo foi publicado em Outubro de 2018 e foi atualizado em Outubro de 2018.