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Os quilombos do Brazil: o coração da história afro-brasileira

Kiratiana Freelon

Os quilombos existem no Brasil desde que o país começou a importar africanos para o trabalho escravo – naquela época eram comunidades autossustentáveis de escravos fugidos, com frequência estabelecidas nas profundezas da floresta. Hoje, o termo se refere às comunidades que restaram desses quilombos originais e que usam sua herança afro-brasileira e fortes laços com a terra como uma forma de resistência contra o apagamento cultural, destruição ambiental e racismo.  


Aprenda sobre o papel que a dança jongo tem na cultura do Quilombo São Jose da Serra © Igor Alecsander / shutterstock

O governo brasileiro reconheceu oficialmente essas comunidades em 1988 e elas passam por um processo intenso para chegar a essa designação e ganhar a escritura de sua terra. Um quilombo é tipicamente uma pequena comunidade de afro-brasileiros que historicamente limitaram seu contato com centros urbanos e, portanto, mantiveram sua herança o mais perto possível das raízes africanas. Líderes comunitários recebem bem os visitantes que possuem um interesse genuíno em sua história, cultura e ativismo; as visitas com frequência incluem trilhas, tours históricos e atividades culturais como dança e canto.

É bom notar que os membros das comunidades não falam inglês e algumas ficam fora do alcance do transporte público. Mas não deixe isso te desencorajar – se você não falar português, existe o Google Translate e há várias formas de organizar uma visita. Para estabelecer contato, simplesmente entre em contato através da página do Facebook do quilombo ou contate Thais Pinheiros do Conectando Territórios, que fala inglês e pode organizar viagens e passeios. Embora isso possa ser um pouco mais complicado do que só passar na atração turística mais próxima, visitar um quilombo é uma forma de turismo sustentável. As comunidades que listamos aqui são todas acessíveis do Rio de Janeiro, então tire uma tarde e aprenda sobre a herança afro-brasileira da região.


Thais Pinheiro (a esquerda) é uma guia turísticas que coordena visitas ao Quilombo do Grotão © Kiratiana Freelon / Lonely Planet

Quilombo do Grotão

O Quilombo do Grotão é uma pequena comunidade de 15 famílias localizada no Parque Estadual da Serra da Tiririca. Os ancestrais dessas famílias migraram do Sergipe, no nordeste, logo depois que a escravidão acabou no Brasil, em 1888. Depois de trabalharem em condições análogas à escravidão por mais quatro décadas, esses ancestrais ficaram na terra quando a fazenda fechou. Em 2016, a comunidade recebeu reconhecimento oficial como um quilombo, mas já que fica dentro do parque estadual, provavelmente nunca terá a propriedade da sua terra.

A nova designação de quilombo renovou o interesse na comunidade, que agora organiza uma festa seminal com samba e feijoada nos domingos, do meio dia até o início da noite, provavelmente o único samba do Rio de Janeiro que fica no meio de uma floresta. Thais Pinheiros leva grupos regularmente até a comunidade para esse evento de domingo. Se os visitantes quiserem usar o transporte público, eles podem pegar um ônibus ou barca do Rio de Janeiro até Niterói e então pegar um taxi até o quilombo na floresta. A comunidade atualiza sua página no Facebook com eventos e cursos e visitas especiais devem ser agendadas particularmente. O principal contato do Grotão é o Renato do Grotão (+55 21 96502-8250).


A Pedra do Sal é um quilombo urbano no Rio que abriga um dos maiores sambas da cidade © Luiz Souza / shutterstock

Quilombo Pedra do Sal

Pedra do Sal é o quilombo mais visitado do Rio, mas a maior parte das pessoas nem sabe que ele tem essa designação. Os turistas conhecem a Pedra do Sal como o lugar do maior e mais animado samba ao ar livre do Rio. Sua história única data dos séculos XVIII e XIX, quando era conhecido como a “Pequena África”. O porto em volta foi onde mais de 1,5 milhões de africanos capturados chegaram no Rio de Janeiro depois da sua jornada pelo Oceano Atlântico. Quando alguns negros escravizados brasileiros ganhavam o suficiente para comprar sua liberdade, muitos se mudavam para essa comunidade de africanos livres onde praticavam sua religião, dando origem a alguns dos primeiros centros brasileiros de religiões de matrizes africanas. As sessões religiosas, ao som de tambores, deram origem ao samba. O Rio de Janeiro está finalmente reconhecendo a importância da área para a herança afro-brasileira e vários museus e centros culturais em volta se focam no assunto.

Visitar a Pedra do Sal é tão fácil quanto aparecer para a roda de samba da segunda à noite, que dura até as 23h. A área fica a 10 minutos de caminhada do metrô Uruguaiana. A festa continua durante toda a noite, com DJs tocando funk na ruas e bares abertos até o amanhecer. Mas para entender a história e significado cultural da área, é melhor fazer um tour guiado. O Afro-Rio Tour conta as histórias dos africanos ao explorar a história das  ruas do Rio de Janeiro e uma parte significativa se foca na Pedra do Sal e a área em volta. O Rio Free Walking Tour oferece um tour do porto que inclui museus, o Bulevar Olímpico e, claro, a Pedra do Sal.


A missão de Adilson Almeida é para que Camorim seja oficialmente reconhecido como quilombo pelo governo brasileiro © Kiratiana Freelon / Lonely Planet

Quilombo do Camorim

O sonho de Adilson Almeida é que Camorim, uma pequena comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro, seja plenamente reconhecida como quilombo. A comunidade original, que fica uma hora a oeste de Copacabana, foi formada por negros escravos que fugiram de uma das primeiras fazendas no estado do Rio de Janeiro. Quando a escravidão foi abolida, muitas dessas pessoas voltaram para ocupar a área da casa grande. O lugar é agora um sítio arqueológico demarcado e os pesquisadores continuam a escavar artefatos dos séculos XVI e XVII. Durante as Olimpíadas e Paralimpíadas de 2016, um repórter local revelou que o alojamento para jornalistas havia sido construído no lugar de um cemitério de escravos. O quilombo fica na borda do parque Estadual da Pedra Branca, uma das maiores florestas urbanas do mundo.

Almeida trabalha como cuidador do parque e com frequência organiza eventos tanto para a comunidade quanto para os visitantes e oferece tours guiados do lago natural do parque. Preste bem atenção na página do Facebook da comunidade, já que há eventos mensais; para planejar sua visita, contate Almeida diretamente (+55 21 98163-3792). O ônibus 613 te leva até perto da comunidade, ou um carro pode te levar diretamente até lá.


O quilombo São José da Serra organiza um enorme festival todo ano em maio, que inclui jongo, feijoada e samba © Kiratiana Freelon / Lonely Planet

Quilombo São Jose da Serra

O quilombo São José de Serra, o mais antigo no estado do Rio de Janeiro, fica a três horas da cidade em uma região que um dia forneceu 75% do café do mundo. No dia 13 de maio, a comunidade desse quilombo de 150 pessoas organiza o maior festival em homenagem ao Preto Velho do Brasil. Embora esse seja o dia em que o Brasil se tornou o último país das américas a abolir a escravidão, essa comunidade escolhe celebrar o espírito do Preto Velho, presente na Umbanda, em vez disso, uma figura conhecida por sua sabedoria e resistência às dificuldades da escravidão. Mais de 3 mil pessoas chegam à pequena comunidade com suas tendas para 24 horas de feijoada, samba e jongo. O destaque da noite é uma enorme fogueira acesa à meia noite e que queima até o início da manhã, quando as pessoas começam a ir embora. Para organizar uma viagem ao festival, cheque o Facebook da comunidade com dois meses de antecedência. Durante o resto do ano, a maior parte das pessoas aluga um carro para dirigir até o quilombo. Você também pode entrar em contato com a Estrada Conservatória-Santa Isabel do Rio Preto para planejar sua visita (quilombosaojosedaserra@gmail.com; +55 24 2457-1130).


Marilda Souza, a líder da comunidade do quilombo de Bracauí oferece tours personalizados da comunidade t © Kiratiana Freelon / Lonely Planet

Quilombo Bracuí

No fim dos anos 1800, José de Souza Beves era dono do engenho de açúcar de Santa Rita do Bracuí; quando Beves libertou seus escravos em 1879, ele também deu a eles a propriedade em que habitam há anos. A comunidade resultante, o Quilombo Bracuí, foi estabelecida e os residentes viveram em paz ali até os anos 1960, cultivando a terra para sobrevivência. Mas quando uma autoestrada foi construída na beira da praia, e as pessoas da cidade descobriram a beleza natural de Angra dos Reis, os quilombolas se viram em uma luta jurídica por sua terra herdada contra os construtores de condomínios. Nos anos 90, membros da comunidade começaram a se identificar como quilombolas como forma de preservar sua herança cultural e sua terra. A comunidade alcançou o status de quilombo em 1999, mas ainda precisa conseguir a escritura de sua terra.

Uma visita de um dia a essa comunidade é uma escapada perfeita do Rio de Janeiro. Bracuí fica a duas horas da cidade e ônibus deixam os visitantes da estrada principal, a uns 20 minutos de caminhada da comunidade. Marilda Souza, a líder da associação da comunidade, está acostumada a receber grupos de visitantes, alguns chegando a 50 pessoas. A visita começa com uma palestra sobre a história da comunidade e a visita também inclui uma trilha até uma queda d’água próxima. Uma parada em Bracuí também pode ser combinada com uma viagem maior até a Ilha Grande. Souza pode ser contatada pelo Facebook do quilombo ou Whatsapp (+55 24 3369-3767) para arranjar visitas. Quando comprar sua passagem na rodoviária, tenha certeza de pegar o ônibus que para próximo ao Bracuí em Angra.

Este artigo foi publicado em Dezembro de 2018 e foi atualizado em Dezembro de 2018.