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Aventuras literárias: recrie jornadas de seis grandes personagens da literatura

Jack Palfrey

A grande literatura pode dar vida a lugares, instigando o nosso desejo de viajar, pois desperta a nossa imaginação. Ótimos livros podem nos inspirar a cair na estrada, sejam eles sobre uma caça a um tesouro, ou uma batalha travada com demônios internos, ou uma jornada épica e perigosa de volta para casa.

Então, se você estiver à procura de aventuras, mas lhe faltam ideias do que fazer, por que não se inspirar em algumas dessas obras atemporais, recriando as jornadas dos protagonistas em busca de emoções, riquezas e novos começos? Anda não leu o livro? Leve uma cópia dele na sua viagem – não há nada melhor do que ler um clássico no lugar em que a história se passa.

 

Siga a rota de Odisseu até a linda ilha de Paxi, mas pegue leve no vinho © Mila Atkovska / Shutterstock

Refaça parte da viagem de Odisseu para casa

Para grande parte dos viajantes, a volta para casa é um momento triste, quando se assiste a filmes medíocres no avião enquanto prende o choro. A viagem de volta para casa tem outro significado para o Rei Odisseu, herói do épico grego de Homero, A Odisseia. O rei demorou dez anos indo de ilha a ilha, ao regressar da Guerra de Troia, devido a tempestades colossais, monstros devoradores de pessoas e uma manada de gado divino que encontrou em seu caminho.

Viajantes que desejam visitar algumas das ilhas gregas da rota de Odisseu, mas que não tenham uma década para fazer isso, podem considerar ater-se ao pedaço final daquela longa jornada. Comece visitando as bonitas vilas de Corfu, onde Odisseu conheceu os hospitaleiros feácios – o navio usado para levar o rei para casa foi transformado em pedra por Poseidon e ainda está na baía da ilhota de Pontikonisi.

Antes que você irrite algum deus grego, embarque em uma balsa para o sul, até a linda praia de pedras de Paxi – uma tranquila ilha que dizem ser a moderna Aeaea, onde a deusa-feiticeira Circe transformou a tripulação do navio de Odisseu em porcos com vinho amaldiçoado (beba com responsabilidade!). Termine o passeio velejando para Ithaki, terra natal de Odisseu, onde é possível ver com seus próprios olhos o grande guerreiro – sua estátua de bronze recebe os visitantes no porto.

O prólogo: há voos diretos de Atenas e também balsas saindo de Igoumenitsa para Corfu. De Corfu, as balsas saem com frequência para Paxi e seguem para Ithaki (via Lefkada).

 

Aproveite uma boa leitura ao ar livre – há algo melhor do que isso? © happyphotons / Shutterstock

Caminhe livremente na Pacific Crest Trail

Banho de floresta – também conhecido como andar na natureza – é algo há muito tempo considerado benéfico para a saúde mental. A autora Cheryl Strayed testou essa teoria em seu livro de memórias, Livre. Lutando contra o vício em drogas depois da morte da mãe, Cheryl saiu em uma aventura solitária na Pacific Crest Trail, nos Estados Unidos. Nos 1500km percorridos da trilha, ela venceu seus demônios – além de enfrentar nevascas, a vida selvagem da região e a perda da maioria de suas unhas do pé.

A Pacific Crest Trail, uma magnífica trilha que serpenteia a costa oeste americana, certamente não é simples como um passeio no parque. Os viajantes que desejam fazer a mesma viagem de autodescoberta de Cheryl – ou simplesmente que queiram caminhar nessa região de paisagem bem diversificada nos EUA – devem começar sua jornada perto da cidade de Mojave, Califórnia.

Rumando a norte daqui, a trilha se contorce por alaranjadas paisagens desérticas e segue para a nevada High Sierra antes de esticar-se pelas florestas rústicas do Oregon até a Ponte dos Deuses, a divisa entre Oregon e Washington – e o ponto que Cheryl escolheu como o término de sua jornada. Qualquer viajante que chegar até aqui merece celebrar a conquista de modo semelhante à autora: com um sorvete e um merecido mergulho no rio.

O prólogo: a maneira mais fácil de chegar a Mojave é pegando um ônibus direto de Los Angeles (onde há um aeroporto internacional) até Bakersfield e, então, pegar o Amtrak para a cidade de Mojave. Os aspirantes a trilheiros devem ler sobre a trilha antes de começar a viagem.

 

Você não encontrará ouro nas Ilhas Coco na Costa Rica, mas o lugar, com certeza, é um tesouro para mergulhadores © Rodrigo Friscione / Getty Images

Navegue em alto mar em busca da sua própria “Ilha do Tesouro”

Responsável por fazer gerações de crianças vasculharem praias procurando um tesouro, A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, é um dos livros infantis mais amados da Inglaterra e popularizou a imagem de piratas como marujos bebedores de rum com pernas de pau e papagaios nos ombros. A história acompanha a jornada do jovem Jim Hawkins, filho de um dono de estalagem, que parte da Inglaterra em busca de um tesouro lendário escondido em uma ilha distante.

Embora Stevenson mantenha a localização da ilha deliberadamente vaga, aqueles que desejam um pouco do famoso tesouro (parte dele ainda está lá, segundo o autor) devem pegar um barco para as Ilhas Coco, perto da costa da Costa Rica. Esse lugar serviu de inspiração para a história e é um verdadeiro esconderijo de tesouros – o capitão William Thompson, um comerciante britânico, teria enterrado aqui, no início do século 19, um tesouro ao vir de Lima, Peru.

Mesmo que seja improvável esbarrar em ouro aqui, a ilha é uma joia para experientes mergulhadores, graças à vida marinha abundante da região – que inclui tubarões, arraias e golfinhos. Caçadores de tesouro profissionais, não temam: há muitos outros destinos onde poderão desenterrar uma fortuna verdadeira.

O prólogo: embora a jornada de Jim comece nas decadentes hospedarias de Bristol, Inglaterra, é mais fácil chegar às Ilhas Coco pela Costa Rica. Barcos saem do porto de Puntarenas em algumas excursões que duram dez dias ou mais.

 

Recrie a jornada de Poirot a bordo do Expresso do Oriente, mas sem a parte das despesas… e do assassinato © Pete Seaward / Lonely Planet

Ande de trem com o inspetor Poirot

Há muito o que se apreciar em longas viagens de trem: o balanço relaxante do vagão, o sentimento de aventura enquanto você passa por paisagens desconhecidas, o grito de uma vítima de assassinato em meio a uma complicada conspiração. Uma das obras mais famosas da escritora inglesa Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente, mostrou o glamour das viagens de trem na Europa para os leitores, que devoraram a história do detetive Hercule Poirot em sua caçada por um assassino a bordo de uma luxuosa locomotiva.

O Expresso do Oriente original, no qual o protagonista do livro reserva uma passagem de Istambul para Calais, parou de operar em 2009, mas os entusiastas de viagens de trem, que adoram adormecer com o estalar dos trilhos, podem recriar grande parte da jornada combinando alguns trajetos noturnos, que ainda existem na Europa, e outros transportes de longa distância.

Começando a aventura em Istambul, passe o dia visitando o hotel Pera Palace – onde Christie teria escrito a maior parte do livro – antes de embarcar no trem noturno para Sofia. Vislumbre as igrejas da cidade e seus domos em forma de cebola, e, então, garanta um lugar no trem matutino para Belgrado. Daqui, há uma linha direta para Viena, onde um trem de longa distância vai para Paris – com uma rápida parada para o café da manhã em Zurique. Embora a jornada seja um pouco cansativa, ela custará bem menos que a passagem de Poirot – e, com certeza, também será menos perigosa.

O prólogo: o trem expresso para Sofia sai toda noite da estação Halkali, em Istambul, acessível do centro da cidade por meio de ônibus ou táxi.

 

Encontrar um lugar tranquilo na areia pode ser um desafio na popular Tailândia © ALEKSANAR VRZALSKI / Getty Images

Siga Richard e encontre sua praia tailandesa particular

Antes mesmo que a palavra overturismo fosse mencionada, e muito menos digitada em caps lock como uma hashtag, havia A Praia – romance que mostrou o quão feio pode ser o turismo comercial e questionou o quão longe viajantes iriam em busca de autenticidade. Ambientado na Tailândia da metade dos anos 1990, o romance de Alex Garland acompanha a vida do mochileiro inglês Richard que, decepcionado pela falta de aventura na “Rota da Panqueca de Banana”, segue um mapa misterioso até uma ilha escondida onde um pequeno grupo de viajantes formou uma idílica comunidade secreta.

Faz sentido, já que o lugar há muito tempo é ponto de partida de muitas aventuras, que a sua viagem comece nos hostels simples da Khao San Road, a lendária rua de Bangkok. Após tomar uma cerveja Chang e comer um pad thai, os viajantes que desejam seguir os passos de Richard devem rumar para o sul, pegando o trem noturno para Surat Thani e, então, embarcar em uma balsa para Ko Samui, o celebrado e antigo lugar hippie que hoje em dia sempre está lotado em época de férias.

Saindo daqui, há passeios de barco para o fantástico Parque Nacional Marinho de Ang Thong, onde Richard encontrou a sua utopia. As suas chances de esbarrar em uma comunidade internacional são poucas, mas as entradas ao parque são monitoradas, o que significa que, uma vez que o lugar não fica lotado de gente, você conseguirá um pedaço de areia só para si – uma conquista notável em um país popular como a Tailândia.

O prólogo: o aeroporto Suvarnabhumi, em Bangkok, tem voos para todos os grandes aeroportos do mundo. Do aeroporto, viajantes podem pegar um ônibus, táxi ou a combinação de trem e ônibus para chegar à famosa rua.

 

Visite o sombrio castelo que teria inspirado o clássico do terror escrito por Shelley © Ronny Winkler / Getty Images

Refaça a jornada amaldiçoada de Frankenstein pela Europa

Viajar é, para muitos, sinônimo de escapismo, e, em nenhum outro lugar, esse conceito é tão verdadeiro quanto no clássico do terror Frankenstein, de Mary Shelley. O livro, inspirado nas viagens da autora pela Europa, conta a história do genial, mas pouco ortodoxo, cientista Victor Frankestein, cujas tentativas de reanimar tecido morto levaram-no à criação de um monstro que o assombra por toda a vida.

Embora Frankenstein não seja sobre viagens, Victor passa por vários locais enquanto foge de sua criação. Os leitores podem seguir a jornada amaldiçoada do protagonista, desde a grandiosa cidade bávara de Landshut, onde ele cria o monstro, até as montanhas de Genebra, onde criador e criatura se reencontram, e, então, para as misteriosas Ilhas Orkney, na Escócia, onde o cientista tenta criar uma companheira para sua besta.

Considerando que as palavras finais de Victor imploram que seu ouvinte “evite a ambição”, seguir os passos dele até o último cenário do livro, o Polo Norte, pode ser demais até para o fã mais devotado. Uma alternativa mais tranquila é fazer uma viagem ao Castelo de Frankenstein – uma antiga fortaleza de pedra na montanha Odenwald que dizem ter inspirado a obra-prima de Shelley.

O prólogo: o aeroporto internacional mais perto da cidade alemã de Landshut é o de Munique. Dali, a viagem de trem até a cidade dura 30 minutos. Para o Castelo de Frankenstein, o aeroporto internacional mais próximo é o de Frankfurt, que fica a 40 minutos de carro do castelo.

Este artigo foi publicado em Novembro de 2019 e foi atualizado em Novembro de 2019.