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Os Ianomâmi, reis da Amazônia

Povo indígena mais numeroso da Amazônia, os ianomâmis ocupam uma área que se estende a norte, ultrapassando a fronteira com a Venezuela. Apesar de numeroso (o total da população é estimado em cerca de 15 mil), o grupo permaneceu relativamente isolado até a década de 1970, quando o governo brasileiro decidiu construir a BR-210. A abertura da rodovia colocou os ianomâmis em contato com centenas de trabalhadores e outros forasteiros. Como se podia esperar, os indígenas começaram a morrer em consequência do sarampo, da gripe e doenças venéreas, e algumas aldeias desapareceram.

Uma década depois, uma corrida pelo ouro levou cerca de 40 mil garimpeiros para o território ianomâmi, poluindo os rios e destruindo parte da floresta. Em 1988, o governo tentou retirar os indígenas de 70% de seu território para permitir a exploração mineral. A pressão nacional e internacional obrigou as autoridades a retrocederem, mas a situação dos ianomâmis continuou complicada e, entre 1986 e 1993, quase um quinto da população foi dizimada, em geral vítima de doenças.

Em 1991, o governo da Venezuela reconheceu oficialmente o território ianomâmi do país como uma reserva protegida. O Brasil seguiu o exemplo um mês depois, criando a Terra Indígena Yanomami, com uma área de 96.650km2, o maior território indígena brasileiro de uma etnia só.

O centro das comunidades ianomâmis é o yano, uma estrutura grande, redonda e coberta de palha, na qual cada família ocupa um espaço voltado para a área central, onde ocorrem as cerimônias e danças da tribo. As famílias organizam seu espaço pendurando redes ao redor de uma fogueira sempre acesa, núcleo da vida familiar.

A alimentação tradicional do grupo inclui macacos, antas, porcos-do-mato e diversos insetos, além de frutas, inhame, banana e mandioca. Os ianomâmi celebram cerimônias e rituais sofisticados e valorizam muito as alianças entre as tribos, especialmente para desestimular as disputas. Quando o solo e a oferta de caça dão sinais de exaustão, a tribo desmonta o yano e muda para outro lugar.

A cura das doenças envolve as danças xamânicas, o poder das mãos e de várias ervas, entre elas a yakoana, com efeitos alucinógenos. Quando um integrante do grupo morre, o corpo fica pendurado em uma árvore até secar e depois é transformado em cinzas – que são misturadas com bananas e consumidas pelos amigos e familiares, como uma forma de incorporar e preservar o espírito do morto.

O antropólogo Napoleon Chagnon viveu entre os ianomâmi durante três décadas e, no famoso livro Yanomamö: The Fierce People, descreveu o grupo como agressivo e em “estado de guerra crônica”. A obra recebeu elogios quando foi publicada, em 1968, mas com o tempo os métodos e conclusões do estudioso viraram alvo de críticas – além das acusações de que Chagnon intencionalmente superestimou um surto de sarampo e exagerou ao relatar a violência dos indígenas. A discussão chamou a atenção para os dilemas éticos inerentes aos estudos de grupos isolados e para a importância de, acima de tudo, se relativizarem considerações em geral baseadas em pontos de vista de brancos ocidentais.

Este artigo foi publicado em Abril de 2014 e foi atualizado em Novembro de 2014.