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Paris clássica: um novo olhar

Paris Notre Dame

Por Rory Goulding

Envolva-se na magia parisiense com esse guia Lonely Planet que foca nas estrelas da cidade, das alturas da Torre Eiffel às profundezas das catacumbas.

Torre Eiffel

O mundo é cheio de edifícios e monumentos com nomes de monarcas, generais e homens de negócios, mas é raro encontrar marcos que dão crédito aos arquitetos e engenheiros que realmente os construíram. A torre gigante que deu as boas-vindas na Exposição Universal, de 1889, foi planejada meramente como uma construção temporária. Talvez seja por isso que ela tenha escapado de ganhar o nome de algum símbolo nacional ou ideologia – em vez disso, ela homenageia o gênio de seu criador, Gustave Eiffel.

Sem saber, Gustave Eiffel projetou o maior símbolo da cidade
Foto por: Mihai Maxim/iStock/ThinkStock

 

“Gustave Eiffel dominava a mais avançada tecnologia da época”, diz Stéphane Dieu, que cuida da herança da torre. “Para começar, os quatro pilares de base da torre tiveram de ser construídos em solo úmido, próximo ao rio. Acima de tudo, foi a fé e o amor dele pela ciência que o guiaram – pode-se notar isso no friso do primeiro andar, que exibe os nomes de 72 cientistas franceses”.

O sucesso comercial da torre de observação de 300 m de altura só foi possível, claro, graças à invenção do elevador. Quatro conjuntos de elevadores diagonais sobem pelos pés inclinados da torre até os andares medianos passando por grades interligadas por cruzes e estrelas. O segundo trecho é vertical, levando até o centro da estrutura. Conforme a cabine do elevador sobe, as quatro pontas da torre se fecham ao redor dela. Quando parece que o suporte de ferro acabará, o elevador para e abre as portas.

A proeza suprema de Eiffel era para ser desmontada em 1909. Foi salva pela insistência dele de que ela poderia ser palco para experimentos científicos e, mais tarde, transmissora de rádio. Pontes e edifícios projetados por Eiffel sobrevivem ainda em diversos lugares, da Hungria à Bolívia. Ele até desenhou a estrutura interna da Estátua da Liberdade. Se não fosse por sua determinação, a torre que leva o seu nome só seria lembrada hoje por alguns cartões postais amarelados.

Superdica: se você já sabe em que data irá para Paris dois ou três meses antes, vale a pena reservar a entrada na torre para evitar as longas filas

(tour-eiffel.fr). Você precisará imprimir a reserva ou mostrá-la na tela do smartphone.

 

Notre-Dame

Notre-Dame é outro dos símbolos de Paris
Foto por: David Ionut/iStock/ThinkStock

 

A fila para entrar na Notre-Dame passa por um marco em bronze incrustrado no paralelepípedo, no qual se lê “point zero”, o ponto zero de Paris que serve de parâmetro para todas as distâncias rodoviárias na França. Como um ponto central oficial, até faz sentido. A catedral fica em uma ilha, cercada pelas correntes fortes do rio Sena e uma das primeiras regiões de Paris ocupadas nos tempos romanos – um terreno convenientemente neutro para a divisão Margem Esquerda/Margem Direita da cidade.

Muito do que tem cara de medieval na igreja é, na verdade, neomedieval. A Revolução Francesa trouxe com ela um sentimento anticlerical e a catedral não escapou ilesa. A maioria dos seus sinos foi derretida e, em 1793, as 28 estátuas da fachada principal foram vandalizadas e decapitadas – a multidão, dizem, confundiu-se, achando que se tratava de reis da França, e não de figuras bíblicas. Em 1831, quando Victor Hugo escreveu O Corcunda de Notre-Dame, a catedral já havia sido toda dilapidada. Nos anos 1840, o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc foi contratado, então, para trazer a Notre-Dame de volta à sua glória. Como acontece com muitos projetos de restauração, porém, ele tomou algumas liberdades criativas. Entre elas estão as famosas figuras grotescas ou quimeras – não exatamente gárgulas, já que servem de decoração, e não como fontes de água. A bela escada caracol que leva à Galerie des Chimères e o conjunto de figuras grotescas no terraço entre as torres oeste – demônios barbados e imponentes, mas também um pelicano e um elefante, são outros exemplos. Não estavam na planta original, mas até aí a Notre-Dame também nunca ganhou as espiras pontudas que se sobreporiam às torres gêmeas quadradas da fachada. Talvez uma grande catedral seja um trabalho em constante progressão.

As figuras grotescas de Viollet-le-Duc foram posteriormente incorporadas à Notre-Dame
Foto por: JCPhotography_/iStock/ThinkStock

 

Superdica: na fachada, no portal à sua esquerda, procure pela estátua de São Dinis de Paris – segundo se conta, o santo andou alguns quilômetros após ser decapitado, carregando a própria cabeça.

 

Louvre

A maior pintura em exibição no Louvre é Bodas de Caná, realizada por Paolo Veronese em 1563. Ela ocupa uma parede inteira da Salle des États e, em qualquer outro lugar, seria certamente o foco da atenção. Mas, na parede da frente, está um retrato bem menor de uma mulher sorrindo enigmaticamente. Graças à Mona Lisa, conhecida na França como La Joconde, as figuras da obra-prima de Veronese passam bastante tempo observando as costas dos visitantes. O museu mais visitado do mundo tem muitos outros tesouros “escondidos” bem diante dos seus olhos, a começar por sua obra mais antiga – uma figura humana de 9 mil anos feita de gesso branco, trazida de Ain Ghazal, na Jordânia. Tutancâmon do Egito viveu mais próximo do nosso tempo do que das pessoas que fizeram essa estátua – um sussurro de um passado sem nome.

 “Quase não queremos dizer quais salas são menos visitadas – queremos mantê-las tranquilas!”, confessa Daniel Soulié, que já escreveu diversos livros sobre o Louvre. “Toda a asa Richelieu e o segundo andar, as galerias de escultura francesa e objetos de arte, as pinturas das escolas nórdicas – essas são lindas coleções que não recebem tantos visitantes”.

Superdica: o museu oferece uma variedade de tours temáticos, entre os quais autoguiados e os que incluem a história do palácio, passeio a cavalo, o inspirado por O Código Da Vinci e o que foca nas obras de arte que retratam o amor ao longo do tempo (louvre.fr).

 

 

Catacumbas

As catacumbas de Paris foram uma solução rápida para um problema que só crescia. No fim do século 18, os cemitérios medievais já não tinham espaço compatível com o aumento da cidade. Antigas sepulturas eram abertas e os ossos, armazenados em casas um tanto quanto macabras – assim, podia-se fazer outro enterro no mesmo lugar.

Por sorte, Paris sempre teve uma rede de túneis subterrâneos, herança dos tempos romanos que depois foi útil para a retirada de calcário usado em construções como a Notre-Dame. A partir de 1786, os antigos cemitérios do centro da cidade foram aos poucos esvaziados e o conteúdo dos sepulcros trazidos para os túneis de mineração em procissões embaladas pelo canto de padres. A última transferência para as catacumbas foi feita em 1860, quando grandes cemitérios periféricos, como o Père Lachaise, aliviaram o problema da cidade.

As catacumbas começam por uma porta, sobre a qual se lê: “Arrête! C’est içi l’empire de la mort” (“Pare! Aqui é o império da morte’). Essa é a primeira de muitas inscrições animadoras que foram criadas, nas palavras do zelador Louis-Étienne Héricart de Thury, para “quebrar a monotonia sinistra e macabra” das catacumbas, e para incentivar nos visitantes (vivos) uma maneira mais filosófica de pensar. As pilhas de ossos dos dois lados dos túneis são datados e localizados (de que cemitério vieram). Mesmo aqui os humanos revelam a sua expressão decorativa, criando padrões de crânios e fêmures. Os primeiros ossos foram jogados aleatoriamente – o racionalismo do século 18 só queria se livrar desses restos mortais desagradáveis de maneira segura. Mas, quando foram retomados os enterros após o período caótico da Revolução Francesa, o romantismo entrou na moda, e as catacumbas foram reprojetadas de maneira a agradar os visitantes, que vinham desfrutar dignamente de uma merecida melancolia.

Uma das inscrições das Catacumbas
Foto por: searagen/iStock/ThinkStock

 

Superdica: filas para entrar podem ficar bem longas (às vezes mais de 1h), então tente chegar antes da abertura das catacumbas, às 10h. Vista-se para a temperatura de 14°C, mais ou menos, e prepare-se para algumas gotinhas caírem do teto sobre você.

 

Este artigo foi publicado em Fevereiro de 2015 e foi atualizado em Fevereiro de 2015.

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